Todo fim e começo de ano traz a mesma cena: listas e mais listas de metas, promessas generosas, cadernos novinhos, planners coloridos… e, muitas vezes, o mesmo resultado de sempre: depois de algumas semanas, quase tudo volta ao que era antes. No fundo, não falta boa vontade; falta ordem, aquela virtude tão sublinhada por São Josemaría Escrivá como fundamento de uma vida cristã fecunda e equilibrada.​

O que está por trás das promessas de Ano-Novo?

Mais do que mudar hábitos isolados, as promessas de Ano-Novo revelam um desejo profundo de recomeçar: ser mais de Deus, cuidar melhor da família, ter mais saúde, trabalhar com sentido, usar melhor o tempo. Esse desejo é bom, mas se não se traduz em uma estrutura concreta de vida, acaba se perdendo em meio à correria diária.​

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São Josemaría insistia que a ordem não é mania de organização, mas uma maneira prática de dar a cada coisa o seu lugar, seu tempo e sua importância, a partir de Deus. Sem essa hierarquia interior, qualquer lista de metas se torna um peso a mais em vez de um caminho real de crescimento.​

Como colocar a “ordem” nas metas

Quando falava da virtude da ordem, São Josemaría ligava diretamente essa atitude a três frutos muito concretos: paz, fecundidade e bom uso do tempo. Uma vida ordenada, para ele, não é uma vida engessada, mas uma vida em que as coisas essenciais não ficam sempre “para depois”, sufocadas pelas urgências.​

Aplicado às promessas de Ano-Novo, isso significa: antes de aumentar a lista de metas, é preciso perguntar o que realmente precisa ser posto em ordem e o que está fora de lugar – na agenda, no coração, em casa, no trabalho. Só assim as resoluções deixam de ser um “checklist motivacional” e se tornam um caminho coerente de conversão ao longo do ano.​

Em vez de metas soltas, um plano de vida

São Josemaría falava muitas vezes de “plano de vida”: um conjunto de hábitos e prioridades que estruturam o dia e o ano, com Deus no centro. Não se trata de inventar mil compromissos, mas de estabelecer um esqueleto simples e firme, que dê unidade: momentos fixos de oração, sacramentos, trabalho feito com seriedade, atenção à família, descanso verdadeiro.​

Quando as promessas de Ano-Novo se encaixam nesse plano de vida, ganham contexto e estabilidade: “rezar mais” deixa de ser algo vago e passa a significar, por exemplo, dez ou quinze minutos diários de oração em horário concreto; “cuidar da família” vira uma noite semanal reservada, sem telas, para estar com o cônjuge e os filhos.​

Como transformar boas intenções em passos concretos

Inspirar-se em São Josemaría para formular metas de Ano-Novo é passar de intenções genéricas a decisões pequenas, claras e praticáveis. Algumas pistas:

  • Escolher poucas metas, mas centrais
    Em vez de abraçar tudo, optar por 2 ou 3 pontos chave ligados às grandes áreas: vida espiritual, família, trabalho, saúde. Isso favorece a fidelidade e evita a frustração de prometer mais do que se consegue viver.​
  • Dar tempo e lugar a cada coisa
    A ordem se concretiza quando cada meta tem um “quando” e um “onde”: horário de oração, rotina de sono, momentos de estudo, tempo para lazer e para servir os outros. São Josemaría lembrava que a fidelidade ao pequeno dever de cada momento vale mais do que grandes projetos nunca iniciados.​
  • Unir ordem exterior e interior
    Arrumar o quarto, a mesa de trabalho, os arquivos digitais, o orçamento da casa: tudo isso ajuda a dar clareza à mente e ao coração. Ao mesmo tempo, a oração, o exame de consciência e a frequência aos sacramentos dão rumo à ordem exterior, para que não vire simples perfeccionismo.​

Um Ano-Novo vivido “no que devo e estou no que faço”

São Josemaría resumia uma atitude inteira de vida numa fórmula muito simples: “faz o que deves e está no que fazes”. Para o início de ano, isso é quase um programa completo: ordenar a vida em torno dos deveres concretos que Deus confia hoje – e vivê-los com presença, sem dispersão e sem fuga.​

Assim, metas e promessas deixam de ser um ritual anual de autopromoção e se transformam em resposta amorosa a uma vocação real, no meio do mundo. Com a virtude da ordem, cada dia do novo ano pode ser menos um “recomeçar do zero” e mais um passo firme numa mesma direção: viver com Deus, no ordinário, com o coração inteiro.​

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Rafael

Marido, pai e apaixonado por comunicação.