São 23h. Os dois já estão deitados, a luz do quarto está apagada, e cada um olha para a sua própria tela. Mais um vídeo, mais uma mensagem, mais uma rolada no feed.

A cena é tão comum que virou estatística. Segundo uma pesquisa encomendada pela marca de colchões Pikolin com 500 pessoas que vivem em casal na Espanha, em 60% dos casos a última luz que se apaga no quarto é a de um dispositivo digital. A boa notícia: o hábito do celular na cama se muda com pequenos acordos, e dá para começar hoje à noite.

O que a pesquisa revela sobre o celular na cama

O estudo “Intimidad y Pantallas”, divulgado em fevereiro de 2026, ouviu pessoas de 25 a 65 anos. Os números chamam atenção:

  • quase 7 em cada 10 casais usam telas na cama antes de dormir;
  • 46% se sentem invisíveis quando o parceiro usa o celular na cama;
  • 1 em cada 3 vai dormir com a sensação de ter sido ignorado;
  • 43% já discutiram por causa do celular no quarto (entre os casais mais jovens, são 61%);
  • 1 em cada 3 não costuma conversar com o parceiro antes de dormir.

E aqui está o detalhe mais humano: 62% gostariam de ter um quarto sem telas, e 64% sabem que o hábito piora o tempo a dois, mas continuam com ele. Ou seja, quase todo mundo sente que algo está errado. Só falta um empurrãozinho.

Para a coach de casais Anna Vicen Renner, porta-voz do estudo, “a intimidade não desaparece de uma vez; vai se desgastando aos poucos quando deixamos de estar presentes” (tradução livre).

Como é uma pesquisa encomendada por uma marca, feita na Espanha, fomos atrás do que dizem os estudos científicos. E eles apontam na mesma direção.

O que é phubbing e por que ele pesa no casamento

Phubbing é a junção, em inglês, de phone (telefone) e snubbing (esnobar). É ignorar quem está com você para olhar o celular. Quando isso acontece com o marido ou a esposa, os pesquisadores chamam de partner phubbing.

Uma meta-análise publicada em 2025 na revista Frontiers in Psychology reuniu 52 estudos, com 58 amostras e 19.698 participantes. O phubbing do parceiro esteve associado a menor satisfação no relacionamento e no casamento, a menos intimidade e a menor sensação de que o outro responde a você. E também a mais conflito e mais ciúme.

O problema, no fundo, não é o aparelho. É a mensagem silenciosa que ele passa ao outro: “agora você não é prioridade”. Por isso, entre as coisas que não devem faltar em um relacionamento para ser duradouro, a atenção está sempre no topo da lista. E vale lembrar como as redes sociais podem nos afastar da verdadeira felicidade.

Celular antes de dormir atrapalha o sono, e o sono mexe com o humor do casal

Além de roubar a conversa, o celular antes de dormir rouba o sono.

Um estudo da Bélgica com 844 adultos mostrou que 6 em cada 10 levavam o celular para o quarto. Mandar ou receber mensagens e ligações depois de apagar a luz previu um sono pior: mais tempo para adormecer, sono menos eficiente e mais interrupções. O uso do celular na cama também previu mais insônia e mais cansaço.

Pesquisadores de Harvard compararam a leitura num aparelho com tela iluminada e a leitura de um livro impresso antes de dormir. Com a tela, as pessoas demoraram mais para dormir, produziram menos melatonina (o hormônio do sono), atrasaram o relógio biológico e acordaram menos alertas.

E o que o sono tem a ver com o casamento? Muito. Um estudo da Universidade da Califórnia em Berkeley observou que, depois de noites mal dormidas, as pessoas relatavam mais conflito no relacionamento. Em laboratório, quando um dos dois tinha dormido mal, o casal mostrava mais emoções negativas e menos capacidade de entender o que o outro sentia. Os conflitos se resolviam melhor quando os dois estavam descansados.

Quem dorme melhor tem mais paciência. E paciência ajuda a superar as discussões no casamento.

A última meia hora do dia é do casal

Nada de proibição nem de sermão. A proposta é um ritual simples, combinado entre os dois:

  1. O carregador mora fora do quarto. Escolham um lugar fixo, como a cozinha ou a sala. Se o celular é o seu despertador, um despertador comum resolve.
  2. Combinem uma “hora de pouso”. Por exemplo, 30 minutos antes de deitar, os celulares vão para o carregador. É um acordo dos dois. Se alguém esquecer, nada de bronca, só um lembrete com carinho.
  3. Três perguntas antes de dormir: “O que foi bom hoje?”, “O que pesou?”, “Como posso te ajudar amanhã?”. Leva uns 5 minutos e muda a noite.
  4. O último olhar do dia é para o outro. Um abraço, um beijo, as mãos dadas. Sem tela no meio.
  5. Uma oração curta a dois, se fizer sentido para vocês: agradecer pelo dia e entregar a noite nas mãos de Deus. Por exemplo: “Obrigado, Senhor, por este dia e por nós dois. Guarda a nossa noite.”
  6. Façam o desafio de 7 noites. Testem por uma semana e, no domingo, conversem sobre como foi.
  7. Se o trabalho exige estar disponível, combinem uma exceção clara, como deixar o celular no corredor com o som ligado, em vez de levá-lo para a cama.

Esse tempo sem tela não precisa ficar só no quarto. O jantar em família é outro momento que merece ser protegido.

Escolher o outro todas as noites

O Papa Francisco já descrevia essa cena na exortação Amoris Laetitia: os meios digitais às vezes “afastam em vez de aproximar”, como “quando um dos cônjuges adormece à espera do outro que passa horas entretido com algum dispositivo electrónico”. A saída que ele propõe é a mesma deste texto: diálogo e acordos, “sem cair em proibições insensatas” (n. 278).

Desligar o celular é escolher a presença. É dizer, sem palavras: “você vem antes”. E é também escolher o descanso, aquele que o salmista descreve: “Apenas me deito, logo adormeço em paz, porque a segurança de meu repouso vem de vós só, Senhor” (Sl 4,9).

O casamento vale cada pequeno esforço. Hoje à noite, deixe o celular carregando fora do quarto e veja o que acontece.

Com informações da Pikolin (estudo “Intimidad y Pantallas”) e de estudos citados ao longo do texto